TRÊS DOENÇAS E TRÊS REMÉDIOS. Leando Karnal
O mundo está cheio de vícios que levam a enfermidades: indico três e proponho melhoras objetivas e práticas para cada uma

O mundo está cheio de vícios que levam a enfermidades. Indicarei três caminhos de adoecimento da mente humana. Em seguida a cada uma, proporei três melhoras objetivas e práticas. Acompanhe e decida.
O primeiro mal psíquico forte deriva da comparação. Compare-se constantemente e veja seu sorriso desaparecer por completo. Conseguiu emagrecer dois quilos? Alguém perdeu dez e ainda aumentou massa magra. Comprou seu carro bom com ar-condicionado e direção elétrica? O IPVA do novo veículo do vizinho é superior ao valor total da sua aquisição. Olhou-se no espelho e viu que sua pele estava boa? Sua colega é uma pororoca de colágeno com um frescor epidérmico que reluz ao sol deste outono. Comparar-se é descobrir-se insuficiente, pequeno, sem recursos e limitado. Os outros, ou alguns ao menos, terão mais, com menos esforço, de forma mais brilhante e ainda dominam melhor filtros para parecerem mais radiosos nas redes. Se eu pensasse em um antídoto, indicaria que a única comparação eficaz é consigo. Sabe mais do que sabia em 2020? Este carro é o melhor de todos que já adquiriu? Ficou mais paciente com sua família? Se a resposta foi sim, parabéns! Limite-se a você e meça seu progresso com sua régua. A régua do vizinho sempre pode ser maior, e mais grossa…
O segundo adoecimento deriva da falta de propósito. Sem saber o porto certo, o navio vaga errante pelo oceano. Eliminada a clareza de metas, toda dificuldade derruba. Viajar sem rumo cansa e deprime. Exemplo: quantos livros quer ler este ano considerando sua realidade? Decidiu-se por dez? Pouco, mas um bom começo. Quais serão? Tem boas indicações? Feita a lista, adquiridos os textos, resta a ação. Todos os dias, sem exceção, por meia hora. Estamos em abril. Será pouco mais de um livro por mês até o Natal. Elaborada a meta de obras impactantes na sua vida, mãos à obra. Anote o que lhe interessa em cada um. Encontre pessoas para discutir. Siga com zelo e obsessão a proposta diária. Ficar folhando livros a esmo, abandonando a maioria pelo caminho, é uma reta para o fracasso e a melancolia. Decisão estratégica precisa de constância. Excelência deriva de repetição. Meta clara traz alegria. Faça algo exequível e coerente com sua tradição. O propósito causará alegria e aumentará seu horizonte. Aceite o desafio de leitura de 2026 e torne-se alguém muito diferente. Construa-se.
Um dos vírus que mais eliminam bons projetos biográficos é a falta de conexão real com as pessoas. Sem um grupo interessante de amigos/familiares, sua vida definha, você seca ao sol solitário e fica isolado. Relações orgânicas são elementos comprovados de longevidade. Você sabe que boas genéticas e bons hábitos ajudam muito. A novidade está na sociabilidade construtiva. Nada de eventos com multidões, relações de frases feitas, visitas formais, coquetéis onde se bebe vazio e se petisca tédio. Gente real e significativa é a vacina contra esse vírus. Um adulto talvez tenha três ou cinco amigos, no máximo. Identificou as pessoas que valem a pena? Elas possuem histórico de confiança? Vocês já riram e choraram juntos? Invista mais nisso. Não mande apenas mensagens de zap: ligue quando for bom para ambos. Marque encontros. Compartilhe fotos com aquela pessoa e com legenda dirigida a ela. Viajem quando possível. Visitem-se. Abra-se quando sentir confiança. Escute muito. Ao viajar, quando observar naquela vitrine o presente que grita o nome do seu amigo, compre. Personalize, escreva um cartão e entregue. Fale como associou seu amigo ao objeto. Crie laços. Cative. Este era o conselho do Pequeno Príncipe que continua válido. Aceite que seu amigo tem alguns defeitos. Aceite que todo mundo é chato de vez em quando. Aceite que aquela pessoa que ele escolheu não é exatamente seu sonho, mas pode ser o dele. Nunca exclua cônjuges ou filhos. Fazem parte do pacote. Acolha. Entenda. Abrace. Visite! A amizade genuína traz energia a sua vida e garoa sobre um coração ressequido. Não é um acidente: amizades são projetos conscientes e consistentes. Pepitas de ouro precisam do seu esforço de garimpagem.
Falei de uma bactéria: a comparação. Sugeri como antibiótico poderoso abandonar o padrão alheio e focar em si. Indiquei um fungo: a falta de propósito. O melhor fungicida é determinar o que você deseja e organizar seu tempo para o que vale a pena. Indiquei leitura. Pode ser atividade física ou economizar recursos. Por fim, contra o vírus da falta de conexão com o mundo, indiquei a vacina das amizades reais e presenciais. Não precisa ser muito, basta ser intenso. Talvez você não tenha tempo para encontros semanais. Faça do bimestre algo muito forte. Não é o muito, mas o bem feito.
Foram três males que adoecem a alma, ou se preferir algo menos metafísico, a mente. Preciso repetir, agora, a pergunta básica do grande pai da medicina, Hipócrates de Cós. Ao tratar de um paciente de um mal, dizia o médico grego, pergunte antes se ele está disposto a abandonar o hábito que o conduziu à doença. Você quer a cura? Curiosamente, o remédio é gratuito e depende de três decisões que podem ser tomadas neste domingo. No SUS do universo, a esperança se chama consciência.
In O Estadão, 12/04/2026, p. C12